O incognoscível
Ele pode explodir em erupção repentina das profundezas da alma com espasmos e convulsões ou levar às mais estranhas excitações, ao frenesi intoxicado, ao transporte e ao êxtase. Ele tem suas formas selvagens e demoníacas e pode afundar em um horror e estremecimento quase pavoroso. (…) Ele pode se tornar a humildade silenciosa, trêmula e muda da criatura na presença de alguém ou de algo. Na presença daquilo que é um mistério inexprimível e acima de todas as criaturas.”
No trecho acima de “O Sagrado”, Rudolf Otto discorre sobre um conceito que intitula “mysterium tremendum”. Ele logo admite que há uma certa futilidade em tentar descrever tal elemento visto que parte da sua essência reside justamente na sua natureza inexplicável, inatingível.
O cinema, desde sua concepção, através da experimentação com novas técnicas e tecnologias, propõe visões e pontos de vista antes tidos como impossíveis ou impensáveis, vide Dziga Vertov e o Cine-olho. A câmera nos permite a captura, e fabricação, de imagens inalcançáveis ao olho humano, nu e primitivo. Seguindo o rumo natural dessa exploração, é de esperar que cineastas viessem a propor a concepção de imagens do sobrenatural. Dentro dessa lógica, o terror enquanto gênero cinematográfico ganha uma força especial, um diferencial em relação aos demais gêneros, já que costuma atuar no limiar entre o desejo de testemunhar e o medo do desconhecido.

The Beyond (Terror nas Trevas), lançado em 1981, dirigido por Lucio Fulci, é uma obra que rumina especificamente sobre a natureza daquilo que é mais sagrado ao terror. O filme conta a história de Liza, uma mulher que herda de um tio distante um pequeno e antigo hotel na Louisiana. O longa abre com um flashback em sépia. Uma mulher, Emily, abre um livro de ocultismo, intitulado “Eibon”, e lê a introdução, que avisa que “o infortúnio chegará àqueles que se aproximarem sem conhecimento”. Enquanto isso, um pintor hospedado em um dos quartos do hotel trabalha em um quadro, uma paisagem fria e rochosa de um lugar inóspito e infernal. Homens armados com tochas e tridentes cruzam pântanos e rios em direção ao hotel, onde capturam o pintor, crucificam-no e o enterram dentro de uma parede no porão do hotel em um aparente ritual. Conhecido por sua tendência de exagerar em efeitos práticos brutais, Fulci orquestra a primeira sequência de morte do filme com uma câmera invasiva, que chega perto da pele, dos ferimentos. A montagem não vacila, nos faz encarar o grotesco. O som é sempre permeado por uma camada de gemidos de dor e o apertar de vísceras.
Dramaticamente, se estabelece uma dinâmica bem comum aos fãs do gênero. O filme é sobre um hotel mal assombrado que tem um histórico de eventos misteriosos no passado. Nesse caso, o prédio foi construído em cima de um dos sete portões do inferno. No tempo presente, Liza vivencia eventos que são consequências diretas dessa herança sobrenatural. O espectador, portanto, cria a expectativa de que Liza irá investigar o histórico do hotel e, durante o ato final do filme, enfrentar as forças e entidades que pairam no lugar. Mas, o filme pinta um quadro diferente.
Os olhos!
Ao começar os trabalhos de renovação, não demora muito para um operário se acidentar ao ter uma visão assustadora de Emily, a mulher que vimos lendo o livro no flashback. Emily aparenta ter sido afetada pelas forças sobrenaturais, apresentando uma cegueira evidenciada pela ausência de pupilas. O pobre homem acidentado fica atônito, tremendo e balbuciando “os olhos!” enquanto sangra. Até o momento, Fulci compõe audiovisualmente o filme com a gramática clássica do terror aliada a um maneirismo autoral, com crash zooms que terminam em primeiríssimos planos e planos detalhes, rack focus e uma trilha musical sombria e persistente.

O segundo infeliz a sofrer um fim trágico é Joe, o encanador que vasculha o porão do hotel para encontrar a origem de um extenso vazamento. Sua missão termina em uma violenta morte quando o cadáver do pintor crucificado arranca-lhe os olhos com as próprias mãos. A governanta do hotel é atacada e, também, perde um olho. De um jeito ou de outro, os personagens em Terror nas Trevas, ao se depararem com uma ponte para o sobrenatural, sofrem intervenções físicas que afligem, principalmente, os olhos.
Uma figura que transpôs uma grande distância temporal inexplicavelmente, Emily se apresenta a Liza a fim de alertá-la dos perigos do local e incitá-la a abandonar a vida que ela pretende construir ali, já que o hotel está fadado a um destino sombrio, assim como foi previsto no livro de Eibon. Mas, enquanto toca uma macabra melodia no piano, Emily relata que é impossível explicar à Liza o porquê de tudo. A princípio, nos recai a falha trágica da protagonista Liza: ela só acredita no que seus olhos veem. Logicamente, portanto, seguindo a dinâmica da narrativa clássica, quando Liza passar a acreditar em Emily, ela poderá se salvar. Mas este é um filme cruel. À medida que a trama avança, o ritmo fica mais e mais letárgico. O clima fúnebre que a atmosfera adquire aprofunda a sensação de desamparo. Em um dado momento, fica claro que, mesmo se Liza acreditasse em Emily desde o início, não haveria nada que ela pudesse ter feito para evitar ou sequer frear o fim. Se, seguindo a lógica da profecia de Eibon, o conhecimento salvará (“conhecimento é poder”), então cabe a Liza entender a sua situação. Mas, acontece que testemunhar uma manifestação do sobrenatural não nos dá conhecimento sobre a totalidade de sua natureza. Se conhecimento é poder, então, pela lógica do filme, ver não é, necessariamente, entender. Portanto, ver não é poder. Ao deixar suas personagens cegas e arrancar-lhes os globos oculares com ímpeto, Lucio Fulci põe em xeque o real poder da nossa visão.
O aturdir
O que Rudolf Otto denomina como o “estupor” que revela a “humildade silenciosa, trêmula e muda da criatura”, Terror nas Trevas apresenta na condição física de seus personagens ao testemunharem vislumbres infernais. A filha do pobre encanador Joe, não obstante a morte horrível do pai, presencia a própria mãe ser mortalmente desfigurada com ácido em um necrotério. E não é um banho abrupto, mas sim um longo, demorado derramamento. Quase gota por gota. A garota permanece estacionária, assistindo com horror à cena. Planos detalhes curtos, entrecortados. Ela não tem forças para reagir, ou sequer falar uma palavra. Paralisadora é a impotência da garota diante da situação. A inquietante melodia de Fabio Frizzi parece estar animada diante da desgraça. O líquido abrasivo se mistura com sangue e adquire uma aparência quase surreal, hipnotizante. O vermelho vivo do líquido infernal contrasta com o chão, branco imaculado, e com a aparência inocente da garota. Suas delicadas sapatilhas tremem diante do inevitável preenchimento do ambiente pelo viscoso líquido.

A essa altura da leitura, já deve ter ficado claro que todos os personagens em Terror nas Trevas irão sofrer um destino sombrio. O conhecimento ou não deles sobre as forças sobrenaturais que estão em jogo nada muda. O arquiteto que ajuda Liza com o hotel procura por volumes antigos a fim de ver a estrutura da construção do edifício. Ao se deparar com a planta do prédio, ele fica atordoado. Um raio cai ao fundo em plena luz do dia e muda toda a lógica interna da cena. Enquanto ele agoniza paralisado no chão e é atacado por tarântulas famintas pelos tecidos moles de seu rosto, o desenho da planta do hotel se apaga sozinho. O conhecimento proibido destrói a si mesmo, quase como se as forças sobrenaturais estivessem consertando um erro, tapando um buraco esquecido.
O objeto realmente misterioso é inapreensível e incompreensível, não só porque meu conhecimento tem respeito aos limites insuperáveis, mas também porque me deparo com algo absolutamente heterogêneo, que, pelo seu gênero e sua essência, é imensurável com a minha essência e que por isso me faz recuar assustado (…). Não só ele é inapreensível pelas nossas categorias, não apenas incompreensível por suas dissimilaridades que perturbam, deslumbram, angustiam e colocam em risco a razão, mas ele é simultaneamente definido por atributos contrários que se excluem e se contradizem.”

Segundo o livro de Eibon, o infortúnio chegará aos desprovidos de conhecimento. Mas, os caminhos e as ferramentas que os personagens têm à disposição são insuficientes para se alcançar o conhecimento necessário porque eles são limitados por um fator imutável: os sentidos humanos. Nossa existência tridimensional é, por si só, incapaz de atingir o entendimento pleno do sobrenatural. No filme, isso se manifesta na gradual dissolução da lógica narrativa, que é refletida na deterioração da carne e no estupor da mente.
A oscilação entre o gore e a sugestão implica na chegada lenta e inevitável do Inferno na Terra, com toda sua violência e angústia. Conforme Liza vai chegando perto de um entendimento de sua situação, de criatura incompleta e impotente, o horror mais direto vai dando lugar a um terror atmosférico. A simplicidade da trama é a desnudez da inexorabilidade das trevas.
O mal é um vazamento, um derramamento. Seja a água misteriosa nas fundações do hotel ou a fumegante mistura de ácido e sangue. E seu primeiro alvo são os olhos. Sempre os olhos. Diante de tamanha hecatombe, só resta o deslumbramento.
