
“O amor não existe. Por isso, não existe tristeza”.
A frase que abre o anime Devilman Crybaby advém de uma força maior que toda a humanidade. Satã, o anjo caído, demonstra seu distanciamento da subjetividade humana, colocando-se como um “totalmente Outro” — das ganz Andere, termo cunhado pelo teólogo alemão Rudolf Otto para descrever o distanciamento existente entre a racionalidade humana e aquilo que é tido como numinoso, ou sagrado. Satã é belo, brilhante e tem uma voz calma. Com doze asas, ele consegue ir de um lugar ao outro em questão de instantes. Sua força e poder são imensuráveis e a sua própria existência parece um absurdo, uma incompreensão diante do mundo material. Mesmo que distante de um ideal de “bom” e “justo”, ele é o que há de divino no mundo de Devilman: um ser cuja incompreensão por parte dos mortais é parte de sua própria constituição, causando impacto por onde quer que ele passe. Isso se conecta com o que Otto chamou de sagrado primitivo: um olhar sobre o mistério divino que não está necessariamente ligado a uma ideia moral de bom ou mau, mas a um estremecimento das estruturas conhecidas, a tomada de consciência — mesmo distante de uma compreensão total — de uma força assombrosa e de poder incalculável.

Mas o protagonista da obra não é Satã. Akira, um adolescente que cresceu longe dos pais, é o oposto. Introspectivo, empático e chorão, ele tem um coração que arde pela humanidade. Se ele narrasse a obra — como Satã o faz —, ele certamente diria algo como: “O amor existe. Por isso, a tristeza existe”. Isso cria uma clara tensão que permeia todo o anime: de um lado, o poder divino quase niilista, que não vê sentido no sofrimento da própria humanidade; do outro, uma força aguerrida a traços humanos como afeto, dor e empatia, capaz de chorar pelo outro sempre que vê o sofrimento acontecer. Isso se revela na própria dinâmica formal do anime. Peguemos como exemplo o primeiro episódio: acompanhamos um dia comum na vida de Akira. A animação, por mais fluida que seja, segue uma estabilidade e há uma clara separação entre corpos e espaço. Quando Akira é apresentado ao Sabbath, porém, há uma transformação drástica. Mesmo antes da intervenção demoníaca, os corpos se movimentam com velocidade, os cortes são frenéticos e a trilha musical inunda os sentidos. Quando o divino/demoníaco mostra as caras, a animação ganha ainda mais fluidez, borrando as fronteiras entre corpo e espaço. Se a simplicidade humana parece ser sóbria e estática, o sagrado surge como instabilidade e terror. Não se trata de um mero confronto moral das forças do bem contra o mal absoluto — ainda que Satã apresente características absolutas enquanto força divina —, mas de um encontro entre a subjetividade humana diante de forças cósmicas tão poderosas que nós não podemos compreender. Porém, o oposto também é verdade.

Ainda falando de Rudolf Otto, o autor de O Sagrado traz mais um conceito conhecido como “sentimento de criatura” (Kreaturgefühl). Entende-se isso como o momento em que tomamos consciência da nossa própria pequenez. Diante de um universo tão vasto e de forças misteriosas, passamos a entender que não somos nada, incapazes diante de qualquer força criadora que haja e as consequências de tal existência. Isso não se resume a uma noção puramente religiosa, incluindo outras formas de arrebatamento diante do que se vê e do que se sente. Em Devilman, o primeiro momento em que o “sentimento de criatura” surge é quando Akira descobre sobre a existência dos demônios — e aqui retornamos à cena do Sabbath. A própria noção de seres com centenas de milhares (talvez milhões) de anos de existência com força indescritível coexistindo com os humanos impressiona. É até um momento comum em tantas obras que revelam ao protagonista forças ocultas de um mundo muito maior do que ele imaginava. Porém, o que mais impressiona é o caminho inverso. Satã também se depara com o incompreensível. Convivendo com Akira, em vários momentos ele é incapaz de entender o que leva o protagonista a chorar diante do sofrimento dos outros ou mesmo se esforçar para além do meramente utilitário para prestar ajuda. Há um aspecto de alienígena tentando compreender costumes humanos, mas o anime vai além. E é interessante como esse estranhamento também é percebido nos próprios corpos: se Satã precisa de um corpo humano para disfarçar sua aparência angelical, Akira literalmente sofre alterações físicas após o contato com Amon, o demônio que lhe deu forças. O contato com o totalmente Outro se revela uma via de transformação dupla aqui.

Ao vermos Satã desmemoriado, acompanhamos um personagem em busca de autoconhecimento. A pessoa mais próxima dele, paradoxalmente, é Akira. Com personalidades tão distintas, eles parecem se complementar. Enquanto Akira traz um coração benigno e um olhar atento a todos, Satã — aqui conhecido como Ryo — é uma mente altamente racional e de genialidade ímpar. Mesmo em sua forma humana, o grande antagonista já demonstra o seu distanciamento dos outros, vendo-os apenas como ferramentas para atingir seus objetivos. Nesse contexto, a humanidade é vista numa posição de criatura mesmo antes de Ryo entender-se como Satã. No cristianismo, Jesus Cristo habitou entre os homens para salvá-los. Em Devilman, Satã veio para destruí-los. Entretanto, o antagonista não contava com a presença de Akira. Não como força física para destruí-lo, mas como revelação emocional.

No arco final da obra, a humanidade é destruída e os demônios vencem a guerra (antes de Deus resolver dar um reset na Terra). Deitado ao lado de Akira, Satã comemora a sua vitória. Mais do que feliz por extinguir a humanidade, ele está radiante por poder contar com a companhia de Akira, aquele chorão que o acompanhou por tanto tempo. Porém, ao olhar para o lado, Satã percebe que Akira está morto. Tentando despertar o amigo, Satã sente algo em seu peito. Em seguida, lágrimas descem de seus olhos. Lembramos de suas palavras: “O amor não existe. Por isso, não existe tristeza”. O choro do antagonista diz algo diferente. Ao fundo, os anjos de Deus começam a destruir aquela Terra condenada. Abraçado ao corpo sem vida de Akira, Satã expressa incompreensão e espanto. Ele não sabe o que está sentindo, mas dói e causa medo. Ele precisa de Akira e clama para que Akira esteja em algum lugar. Um ser divino prostrado diante da menor das criaturas.

A transformação de Satã contrasta com a rigidez de Akira. Ainda que o protagonista tenha se transformado fisicamente para combater os demônios, o seu coração segue o mesmo da primeira à última cena do anime. Mesmo diante da mais severa dor, há algo sagrado e incompreensível na humanidade de Akira. Paradoxalmente, a força mística de milenar de Satã altera-se gravemente. Iniciando a obra com um objetivo claro, ele conquista aquilo que desejava. A humanidade é extinta e o mundo poderá ser tomado pelos demônios. Mas ele descobre uma perda insuperável, uma dor maior que sua própria existência, um peso tão grande que o faz sentir aquilo que, para ele, nem sequer existia de fato. O divino vivendo a transcendência ao sofrer como um mortal.
Devilman Crybaby termina sendo essa ironia trágica: uma força divina que se transforma não por uma revelação mística espetacular, mas por uma torrente de lágrimas. Ainda que o final possa ser visto como niilista e sem esperança, eu vejo de outra forma: o amor existe. Por isso, a tristeza existe.

